O tempo que vai passando, leva-nos para outra idade.
Sábado, 18 de Abril de 2009

 

Vou passando os olhos pelas escritas dos meus blogs favoritos. Descubro novos saberes dos mais novos e dos mais velhos, percebo por aí reflexões de profunda integridade. Há registos diferentes, depois dum esforço acrescido mas há também opulência, alguma de muito mau gosto.

O que tem a blogoesfera que nos dá volta à cabeça? Eu própria, sem muito cuidado, na impulsividade do que escrevo, dou-lhe um “enter” aí vai, ora bolas que se publique

Entramos por aqui dentro, sem ouvir a consciência, damo-nos a nu ao mundo, fingimos que nem pensamos, mas é muito o que dizemos, mesmo quando nada dizemos. Isto é falta de pudor ou alguma leviandade, virando as costas ao mundo toca de escrever á vontade,  que se lixe quem nos lê.

Estamos numa outra era, a das conversas a sós, nítido narcisismo que nem ao espelho se vê, escrevemos porque escrevemos e isso basta-nos assim. Ou será que procuramos qualquer imagem de nós?

 

 

 

publicado por outraidade às 18:35

Sábado, 04 de Abril de 2009

 

Só hoje é que dei conta que já tinha passado o " Dia das Mentiras".´Mas então qual foi a mentira nacional?

- Escolhe! - disse-me.

- Isso é para rir?

- Não, é para dares conta da palhaçada - referiu.

E ficou sisudo, sem expressão.

O que é que me estaria a passar ao lado? Num tom inquietante perguntei:

- Mas o que é que houve?

- Foi abolido o "Dia das Mentiras". Decretaram o "Dia da Verdade".

Que estranho. Mas ainda me aventurei:

- Que é quando?

- Está em estudo na Assembleia da República.

publicado por outraidade às 13:59

Domingo, 29 de Março de 2009

       

 

Estes tempos duma realidade que nos revolta as entranhas em que o descaramento passou a ser referência, em que se assumem delitos em nome de valores, em que deixou de ser vergonha arrecadar o que não lhes pertence, que tudo passou a ser verdade sem se saber se é mentira, que em nome de objectivos transparentes se sustentam os sombrios, que a escrita serve a oralidade incoerente, que se apregoam milhões aceites no meio de quem passa fome, é para qualquer ser normal uma ofensa.

            E eu, que já tenho idade para não me sentir desconsiderada com qualquer prosápia, sinto-me a servir este mundo de vaidades, com gente que me afronta cada vez que aparece, exibindo carros que contribuí para lhes comprar e mordomias que se não fosse eu não tinham.

            Não há política que resista a homens que, publicamente, demonstram falta de carácter, a partidos que se deixam dominar por poderes pérfidos, a justiça que se diz pressionada, a informação que se deixa envolver por deveres que não constam na sua deontologia.

            Não há sociedade que consiga erguer como bandeira preceitos que escorregam em baralhadas escudadas em nome duma natureza que ninguém entende a não ser que também esteja envolvido nela.

            Por favor não me ofendam mais, não tenham a desfaçatez de claramente me chamarem lorpa e, pelo menos, recatem-se enquanto o povo não acorda.

 

           

 

publicado por outraidade às 19:46

Sábado, 21 de Março de 2009

 

Dia da Poesia! Poesia como forma de escrita, palavras que se transformam em sentimentos, acasalamento de ideias que resvalam para o imaginário, coloração de detalhes arrevesados de pensamentos em golfadas de vida, estimulada inspiração. A poesia é doce e amarga, é redonda e quadrada, é leve e pesada, é fria e quente. A poesia não mente, não fica ausente, é presente.

 

publicado por outraidade às 17:37
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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

 

Recebi uma mensagem com diversos pensamentos de Rubem Alves. Fixei-me essencialmente num que dizia “educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu”. Fiquei a pensar como nos perdemos em conceitos tão rebuscados quando falamos de educação quando afinal tudo parece poder sintetizar-se tão simplesmente. Não digo facilmente porque, raras vezes, simples e fácil são sinónimos. Talvez tenhamos, desde há uns largos anos, erradamente, enveredado por este caminho cómodo da vida, ou seja, da educação e cuidamos domá-la por devaneios de homens e mulheres que, tendencialmente, olham tudo de uma forma demasiado básica resumindo todos os desígnios á soma de 2 e 2.

“Mostrar” alguma coisa a alguém é saber do que se fala, caso contrário corre-se o risco de cair em ensinamentos esvaziados ou limitar-se a produzir o que se leu e não se viveu, nem se amadureceu. Mostrar uma vida destituída de essência, carecida de alma, de reflexão a quem está puro como as crianças tem as suas consequências. O mesmo que querer ensinar-lhes uma canção quando somos completamente desafinados.

Se lhes mostramos uma vida sem cor como podemos exigir que pintem o arco-íris? Se lhes dizemos que todos somos iguais como queremos que elas entendam que existem os sem-abrigo? Se evitamos dizer-lhes não como aprendem a perceber a importância do sim? Se lhes proporcionamos todas as comodidades como aprenderão a lidar com as contrariedades? Se não lhe falamos da morte como podemos falar-lhes da vida?

Nesta missão cuja responsabilidade pertence à família, à casa, depressa se complementa na escola que, nos primeiros anos, é sua parceira.

Ninguém conseguirá transmitir esse mundo se, eventualmente, não passou por ele e não vive nele. Pode-se ensinar bem matemática mesmo sendo uma pessoa com menos carácter mas ninguém conseguirá ensinar outro a ser educado se não conseguiu ver para além do que, socialmente, se aceita como boa educação.

 

 

 

 

publicado por outraidade às 18:19
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Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Afinal há mesmo remédio para tudo! Hoje está na moda - chocolate. Serve para todos os males, como banha da cobra (dispensa-se literatura de cordel). Será que também faz bem à crise?

Na civilização Maia os curandeiros enfatizavam os seus efeitos estimulantes e analgésicos.

Napoleão usava-o como energético para as suas tropas.

No século XX, finalmente, é mesmo remédio para tudo - poder antioxidante, vital para o crescimento, actua sobre o sistema nervoso central e muscular, melhora o funcionamento do coração, poderes de estimulante cerebral e concentração, previne a insónia e facilita o bom-humor,etc.

Recentemente, o que está a dar são as aplicações externas de chocolate para a pele, para a celulite, para o adelgaçamento, para relaxamento...

Andamos a precisar de chocolate para melhorar a imagem dos políticos, um cacau quente todas as manhãs na Assembleia da República, sobremesa obrigatória nos grandes jantares de negócios, um quadradinho aos jornalistas antes dos directos,"un petit gateaux" nos "coffee-break" das reuniões da UE.

Não faria mal também aos portugueses um pedacinho (porque não dá para mais)

todos os dias ao deitar.

A ver se acordamos com menos amargos de boca.

publicado por outraidade às 22:19
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Segunda-feira, 02 de Março de 2009

Pergunto-me tantas vezes o que é ser feliz. E perco-me em mil conjecturas de tanta variedade que acabo sempre por concluir que não é coisa fácil e que requer uma construção minuciosa e árdua, projectando o lugar de cada palavra, de cada cor, de cada acto. Encontro nos poetas pouca coisa sobre a felicidade, mas esses, têm a nobreza de atingir um outro patamar do estar, quase intransponível para mim, simples pessoa tão ligada às coisas, às pequenas coisas que preenchem o meu diário.

Quanto mais alto colocamos esse ideal de felicidade, mais dificilmente lhe chegamos.

Perdemos a satisfação que deveríamos sentir ao ouvir uma boa música, ao escutar uma boa notícia, ao sentir o odor da Primavera porque projectamos que a felicidade é outra coisa muito mais profunda, limitando-nos a viver nesta busca permanente que nunca termina.

Entretanto, desaproveitamos tanta coisa boa com que fomos tropeçando pelo caminho.

 

(ao meu amigo José Carlos do blog Transdisciplinar que, durante algum tempo, me deixou comentários que me trouxeram momentos de felicidade)

 

 

 

publicado por outraidade às 21:57

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Acordei. Pela primeira vez em muitos anos, os montes estavam cobertos de neve, mesmo de fronte ás minhas janelas! Romântico, bucólico, poético.

A máquina fotográfica, claro, para um dia mostrar ao meu neto. Não é todos os anos que acontece.

As pilhas estavam descarregadas, todas as pilhas num total de oito. Inacreditável! Ponho as pilhas a carregar, só que dê para tirar uma fotografia…

Volto à janela, que paisagem!

As pilhas, nada, não recebiam carga. Ponho o segundo par no carregador.

O nevoeiro já tinha descido. Começa a chover e receio que se esbata aquela deslumbrante imagem que me acordara de manhã.

As nuvens passam, a chuva pára, o nevoeiro vai-se dissipando, abrem uns raios de sol que me deixam vislumbrar a linha de neve traçada a régua no meio da montanha. Ora, já bem menos porque a chuva a derretera.

Corro para a máquina, as pilhas já carregaram um pouco, uma fotografia sai. A máquina não liga, as pilhas não receberam carga porque o eficaz carregador não estava a fazer bom contacto.

Através da janela pularam-me os olhos para os montes. O nevoeiro já descia novamente em direcção ao rio, as nuvens carregadas cobriram o meu horizonte e voltou a chover intensamente. Fechei os olhos e reconstituí aquela primeira imagem que me deu tanta felicidade pela manhã.

Ouvia-se a chuva que estalava nas velhas telhas do sobrado. O caminho já era um ribeiro em direcção ao silvado.

A chuva a pouco e pouco foi abrandando. O nevoeiro esfarrapava-se nas costas do monte fintando-me os olhos nuns restos de neve que ainda não ficara derretida.

Ouvi a notícia da morte de Eluana. Deixei-me ficar presa na lonjura do pensamento que conseguia atravessar todos os montes que me rodeavam.

Aquela paisagem era apenas a subtileza dum momento tão profundo que mergulhava na saudade.

 


Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Falar de nós é muito complicado. Vamos falando de tudo e, muitas vezes, não falando de nada. Estamos atentos ao que nos rodeia, aos acontecimentos nacionais, aos internacionais, prendemo-nos às notícias que nos põem dentro de casa, mas vamo-nos adiando como notícia guardando e muito a nossa intimidade porque não fomos habituados a deixar transparecer os sentimentos de forma espontânea. Antes de qualquer atitude social reflectimos o nosso comportamento e cerceamo-nos à medida daquilo que entendemos como aceitável.

Há dias, um investigador de uma universidade portuguesa concluiu que os portugueses riem pouco, mesmo muito pouco. A opinião pública adiantou-se a definir razões e penso que ninguém referiu o fechamento social em que, cada vez mais, mergulhamos. Claro que não aspiramos a ser coloridos como os brasileiros ou intensos como os italianos, mas nós temos enraizadas tradições e músicas sobejamente arejadas para não querermos apenas puxar o lado fatalista que herdámos da batalha de Alcácer Quibir.

Inspirando-me um pouquinho na minha fraca formação sociológica, fui captando os rostos e os comportamentos e, mesmo sem qualquer instrução nessa área bastando-nos sermos mais observadores, reparamos que, todos os comportamentos um pouco mais fogosos são repreendidos. Uma boa gargalhada põe os circundantes a olhar, um chamamento mais caloroso atrai miradas importunadas, um simples choro a pulmões de uma criança irrita os passeantes.

“Muito riso, pouco siso” , assim diz o ditado e, talvez por isso, acreditamos que assim seja.

Mas essa forma de encarar a vida não nos transporta para uma melhor qualidade de viver. Andamos demasiado cinzentos, talvez porque o bom humor deixou de pertencer ao catálogo dos atributos humanos.

Esta penumbra que nos envolve, condiciona-nos e isola-nos. Por isso, já não sabemos falar de nós ou não achamos bem falar de nós. E quanto menos falamos de nós, menos estamos connosco mesmos e mais nos afastamos do que realmente somos.

 

 

publicado por outraidade às 15:43
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Terça-feira, 02 de Dezembro de 2008

Nos tempos que correm sinto-me de menos sorrisos. Quando muito algum riso amargamente provocado pela leviandade dos homens, exímios utilizadores daquilo que malevolamente têm na sua natureza, acreditando estouvadamente que os outros são destituídos de sentido crítico. Parece um desabafo amargo, desiludido, mas não. A percepção da realidade que nos envolve e que muitas vezes camuflamos de ignorância, faz-nos acordar para a brevidade deste percurso independentemente da fé em que acreditamos ou mesmo quando afirmamos que não temos fé.

Foi este o sentimento que me invadiu durante o recente ataque a Bombaim. Revi as imagens de locais que pisei quando visitei a Índia há um ano e meio. A noção de estar a ver algo errado, de não ser verosímil o relato dos repórteres porque era demasiado contrastante a serenidade dos rostos com que me cruzei e tanta violência. Ninguém tinha o direito de querer alterar as coisas assim.

Bombaim é uma cidade de contrastes é certo, inúmeros e indeterminados mas mesmo quando nos incomodamos com o monóxido de carbono dos pequenos e velhos táxis, dos motociclos de séculos passados eleitos como principal meio de transporte, dos edifícios de traça europeia ombreando com as janelas de estilo hindu, mesmo assim não se pode querer mudar o olhar místico entre o pacífico e o submisso que transparece dos semblantes emoldurados por cabelos negros que nos desassossegam quando, disfarçadamente, os encaramos.

 

publicado por outraidade às 19:32
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