O tempo que vai passando, leva-nos para outra idade.

Terça-feira, 29 de Maio de 2007

A propósito do artigo de Eduardo Prado Coelho “In Público”, a propósito da expansão da campanha destes últimos dias a favor da menina inglesa desaparecida no Algarve, a propósito do debate “prós e contras” ontem na televisão, sinto uma raiva enorme em ter de dizer que nunca mais chega a hora de dar uma volta às nossas mentalidades, à nossa forma de encarar as coisas com outra paixão, ao emprego sem sentido de determinado tipo de “frases feitas” que nos agarram à época da pós revolução. Não saltamos para outro patamar que nada tem a ver com europeização ou progresso, tem a ver connosco como povo, como gente, como País.

Contestamos os governantes que elegemos, abraçamos uma solidariedade “mijona” e acreditamos na perspectiva de trabalho que os sindicatos impõem.

E disto se faz o dia-a-dia do nosso (des) contentamento.

Queixamo-nos do governo mas quem é que votou não foi o povo português?

Compadecemo-nos com os Mccann mas onde estão os grandes empresários a financiar qualquer acção em favor dos meninos desaparecidos em Portugal?

O nosso mercado de trabalho está cada vez mais precário mas onde estão os sindicatos quando é preciso negociar e defender localmente postos de trabalho?

Afinal só uma parte dos trabalhadores é que estão descontentes, já que não se verifica uma adesão global à greve geral (há sindicatos que não concordam com ela).

Quem afinal andamos a servir? Que valores defendemos? Que raio de comiseração é a nossa que nos deixamos tocar pelo sofrimento de uns e não de outros?

O meu ataque e a minha defesa não é pessoalizada, é generalizada. E sinto-me à vontade porque sou apartidária, fui educada segundo os princípios da religião católica mas o meu Cristo é revolucionário e no meu trabalho fui sempre uma contestatária.

Posso não ter resolvido nada com esta minha forma de estar na vida, mas seria hipócrita se me calasse ao ouvir sempre que “a culpa é do governo”, ao constatar que a imprensa cobre todos os passos dos pais da Madeleine e, de soslaio, repita entrevistas dos pais portugueses que também têm os filhos desaparecidos e, ainda, que se faça um debate na televisão portuguesa para ouvir discursos passadistas.

 

 

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publicado por outraidade às 14:40

Terça-feira, 22 de Maio de 2007

A Lusa, num artigo difundido hoje, refere que “o Procurador Geral da República revelou no Parlamento que o Conselho Superior do Ministério Público propôs recentemente ao Governo que o crime de subtracção de menores venha a ser considerado prioritário na investigação criminal”. E citando o mesmo artigo, a justificação dada pelo PGR é que se trata de “um crime que hoje, mais do que nunca, está em voga e tudo aquilo que cause alarme social também influencia a prioridade criminal”. Segundo parece, a interacção entre uma coisa e outra, isto é, o alarme social e a prioridade criminal é da maior importância, tanto assim que essa filosofia levou a que nessa lista de prioridades se incluíssem as agressões a professores e médicos.

Esta leitura confronta-me com uma série de questões preocupantes, porque ou me falta capacidade de análise ou a minha metodologia de observação anda desnorteada, já que não posso supor que existam imprecisões de escrita ou de entrevista numa matéria tão reflectida.

Toda a maneira, usando este meu espaço, sempre questiono: quantos crimes de subtracção de menores são participados em Portugal por ano?

Será que houve algum equívoco de designação?

Não, não me tenho apercebido desse enorme alarme social causado pela prática desse crime ou então os “media” têm andado desatentos a essas prioridades.

A ser assim (eu, de facto, não tenho as estatísticas), as actuais penas previstas no Código Penal Português não são consentâneas com um crime grave (pena de prisão até 2 anos ou pena de multa até 240 dias).

É, deve ser erro meu de análise porque nem tudo o que se escreve ou se lê é certeza!

Insisto, fala-se na dita notícia de “subtracção de menores”, não de rapto ou sequestro cujas molduras penais são muito diferentes.

Quanto às agressões a professores (ou a outros funcionários da escola subentendo) quem é que a nova lei pretende punir? A lei penal portuguesa só imputa responsabilidade criminal a partir dos 16 anos, situação que qualquer jovem hoje não desconhece, mesmo aqueles que no 9º ano (escolaridade obrigatória) mal sabem ler. Assim sendo…

Mas voltamos ao mesmo, hoje é-se punido com prisão até 3 anos ou pena de multa. No caso concreto das escolas, quer-se  resolver o quê a quem?

Deixem-me acreditar que as reformas do Código Penal e do Código Processo Penal serão adequadas à realidade social em que vivemos e que as “prioridades” ultrapassam o politicamente correcto e se fixam no que é prioritário.

 

 

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publicado por outraidade às 21:18

Sábado, 19 de Maio de 2007

Nenhum português põe em causa que tem a melhor polícia do mundo. Bem do nosso feitio, deixamo-nos envolver pelas emoções, mesmo quando elas dizem respeito a outros povos do mundo. Somos, sem dúvida, temperamentais uma mais valia mediterrânica que, não raras vezes, nos atraiçoa. Deixámos para trás a aprendizagem de beber chá como os asiáticos e optámos pelo café cuja sedução  condizia melhor com a nossa raça de aromas.

Este nosso sangue mesclado leva-nos a alguns comportamentos que mais não são que a consequência pragmática de, como dizia Moita Flores nos “prós e contras” da passada segunda feira, “quem não sabe teoriza”. Naturalmente, sem teorias nunca se teria chegado à ciência mas, verdade se diga, foram os exageros em teorias que vieram a demonstrar, ao longo da história dos povos, que nem todos os teóricos são cientistas. E, que me desculpem os mais patrióticos, a nossa classe “erudita” tem alguma tendência demasiado acentuada para teorizar. Ultimamente a menina inglesa tem sido motivo para espraiar considerações estouvadas o que, não abona nada a nosso favor como País.

Já bastam outros para fazer tristes figuras, mas esses dizem ter aprendido a beber chá, o que me levanta algumas incertezas.

As entrevistas, conferências de imprensa, imediatismo (para não dizer amadorismo) de alguns “media” a nível mundial espantam-nos, apesar de sermos este povo aqui no canto, com os olhos virados para o mar e uma alma cheia de esperança que nos suporta há longos anos.

Qualquer pessoa alheia a este acontecimento põe naturalmente uma série de interrogações, o que é natural, já que somos seres pensantes, as quais eu declino colocar neste momento para não machucar quem quer que seja. E estou certa que quem está a fazer as investigações deste caso também já as colocou. Mas isso são outros enredos, outros limiares que virão a seu tempo.

Mas há um parapeito no qual eu não posso deixar de por o meu manjerico, mais precisamente, as conferências de imprensa a que a PJ se tem submetido. A investigação é feita por investigadores, por operacionais que sabem e fazem aquilo para que estão preparados, mas esses mesmos operacionais não são, não deviam ser a ligação com a imprensa por várias razões:

- nenhum operacional tem preparação para dar conferências de imprensa e não chega a vontade, o jeito, umas luzes para, de um dia para o outro, passar a ser o porta-voz da PJ;

-  não se compromete o rosto de um operacional numa situação destas que, já foi apelidado de tudo desde agente, a chefe, a director de departamento e que poderá ser coroado com louros se o caso tiver um desfecho positivo mas o contrário também é verdadeiro;

-  em Portugal fala-se português e é essa a língua para qualquer comunicação como acontece, aliás, em qualquer outro País do mundo. Os jornalistas estrangeiros se não entendem servem-se de tradutores;

-   ou há segredo de justiça e assuma-se isso totalmente (de acordo com a lei vingente) ou não há, meios termos, conforme os casos, é que não são opção;

-  o Inspector-Chefe Olegário Sousa, cada vez que aparece, é o homem deitado às feras. Aplauda-se o esforço que denota, a habilidade com que se vai safando, mas caberia (não a ele é claro) mas a quem tem poder de decisão, pensar como está a expor aquela instituição.

Mas voltando ao nosso engenho e arte, um dia, esperemos, as coisas serão diferentes.

 

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publicado por outraidade às 14:50

Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Na última semana todos somos entendidos, sabedores, especialistas do caso Madeleine que, naturalmente, não nos pode deixar indiferentes.

Os “peritos” aparecem, vindos dos sete cantos do mundo, avançam hipóteses, traçam profecias, delineiam estratégias, como se já não bastassem os experimentados jornalistas que acorrem ao local, demarcando a cena do crime, conjecturando mais de um milhão de possibilidades, mascando opiniões deste e daquele que encontram pelo caminho, tecendo críticas à falta de informação, avançando mesmo possíveis escapatórias que o autor do crime tem à mão.

E lá reaparecem os especialistas que vão amassando as suas ideias neste e naquele veículo da imprensa e maçando os nossos ouvidos num frenesim tal que quase parece uma corrida à melhor. Melhor qualquer coisa que não sei bem o quê.

Facto é que Madeleine, a menina de três anos inglesa de férias no Algarve desapareceu. Tudo o resto são lérias, palavreado que não “aquenta nem arrefenta”.

A policia portuguesa investiga e, naturalmente, prestará esclarecimentos aos pais da criança.  Esclarecimentos que deveriam ser filtrados por psicólogos competentes porque a policia não é especializada nesse tipo de papel. A forma como se fala, o que se diz, a elaboração das questões a estes pais deveria ser cuidada por uma equipa multidisciplinar, tanto para não magoar, como para não dar perspectivas erróneas, ou mesmo não passar informações que possam prejudicar determinados caminhos da investigação.

Em Inglaterra o FBI dá todas as informações à imprensa? Essa é novidade para qualquer cidadão do mundo.

Os pais de Madeleine actuaram com negligência? Isso é um assunto para depois.

Esquecemo-nos todos que os criminosos também ouvem as notícias, lêem os jornais e, naturalmente, todos os pormenores publicados são-lhes preciosos para o passo seguinte estando, para além do mais, a actuar em vantagem.

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publicado por outraidade às 14:35

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