O tempo que vai passando, leva-nos para outra idade.

Sábado, 26 de Julho de 2008

Em Outubro de 2006 publiquei um post que intitulei “Coisas da Idade”. Falar de sentimentos por animais poderá parecer coisas de criança mas também de gente da minha idade em que perdemos alguns preconceitos sobre os juízos de valor dos outros. A plástica da nossa vida leva-nos a esconder os momentos de tristeza deixando apenas que os outros penetrem na nossa concepção de “perfeição”. Encobrimos as lágrimas porque quem está ao nosso lado não sabe como secá-las ou não merece vê-las. Pensando assim, resolvi partilhar esta perda com quem me lê. A minha tronchuda era uma caniche muito especial, especial nos comportamentos, na forma como manifestava os seus acessos de afecto, as suas zangas quando a deixava sozinha, as brincadeiras com bolas e bonecos de peluche, o prazer que tinha em comer fruta e em apanhar banhos de sol. A Shena era destemida apesar do seu pequeno porte. Foi a minha boa companheira em muitos momentos. Não sei se os cães têm alma mas têm de certeza mais qualquer coisa para além do corpo.

                                                                                                                                                                            E essa mais qualquer coisa nela estava muito perto de mim.        

                                                                                               

 

                                              

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publicado por outraidade às 16:58

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

Vamos indo e vendo, muitas vezes não querendo perceber o que nos mostram. Outra vez o “desaparecimento” de Madeleine, desta por divulgação do relatório das investigações. Deve tratar-se de documento da maior importância, considerando o fulgor da imprensa que nos toma por ignorantes e afirma que teve acesso à sua totalidade. Se assim é, mais um atropelo ao segredo de justiça, mas ouvindo-se encher a boca, isto é, as páginas dos jornais, até temos dúvidas se o dito relatório foi  mesmo espalhado para a imprensa…O relatório, que não passa de um resumo das investigações ou duma sinopse, como hoje tanto se utiliza, não pode reproduzir aquilo que a investigação não alcançou. Não é sequer uma parte obrigatória do inquérito. Os mais incrédulos desfolhem o Código de Processo Penal e procurem onde é que consta essa peça processual. Assim sendo, tem o valor que tem. Poupem-nos de tanta inocência!

 

Carjacking, dizem-nos na informação pública. Eis como classificam um assalto à mão armada ao ourives de Gaia. O que é que não sabem, o que é um assalto à mão armada ou o que é “carjacking”? As vozes do ofício político que andam um pouco embaralhados com o calor dos últimos dias,  atordoam-se com afirmações de conveniência, encravados pela santa ignorância…

 

Dois grupos étnicos desentenderam-se. Lisboa e Loures quer a resolução do conflito. Sucedem-se afirmações de radicalismo exacerbado, de conotações racistas e xenófobas, extremam-se posições pelo que se viu na televisão. Pois, a “multiópticas” faz descontos, não precisamos de andar ceguetas tanto tempo! As instituições públicas vêm a terreiro numa de conversações, apresentando opções, que corações! Amontoar pessoas, atribuir-lhes casas e rendimentos mínimos solucionam só alguns problemas. Pelos vistos, parcos remedeios duma integração social.

 

Ah, Sr. Bastonário, cuidado com essa emoção! Lá se vai a razão das verdades que diz saber quando a sensação fala mais alto. Comedimento não é sinónimo de transigência mas as palavras são como são. Sim quando fala do poder e do dever, sim quando fala das instituições e das corporações. Outras já não, quando se deixa desvanecer pela popularidade da linguagem. É que depois, o povo que ainda o escuta, deixa-se adormecer pela  toada tão linear do compasso.

A filarmónica lá da minha terra, toda a procissão toca a mesma…

 

Prometo, não vou por aí, assuntos tão sérios não se tratam assim.

Vá, só por esta vez, a minha ignorância foi um pouco atrevida.

 

 

 

publicado por outraidade às 14:14

Quarta-feira, 02 de Julho de 2008

 

Já passava da meia noite. Encontros estranhos a esta hora numa cidade que se não conhece. O rosto pedia qualquer coisa mais para além do dinheiro.

“- Não vou negar, consumo heroína”.

Os olhos procuravam mais a minha afabilidade, embora não lhe fosse indiferente a minha carteira.

“- Não lhe minto, alguma coisa vai para a droga”.

A noite corria fresca, a iluminação era exígua perdendo toda a amplitude da expressão mas à face acudiam trejeitos de uma idade que não era a real – 33 anos.

“ – Vividos por aí”.

Nalguma utopia, entregava-me as suas origens, fazendo-me brilhar os olhos, ancorando-me na verdade de saber quem é.

“- Estou sozinho numa pensão paga pela segurança social ”.

Quase se despiu para me mostrar o corpo perdido no comichão.

“- Será sarna? Tenho medo que seja Sida”.

Ficaram compromissos sem juramentos porque nenhum de nós queria mentir.

“- Vou primeiro à farmácia”.

Ficou-lhe a liberdade de escolher entre poucas escolhas de vida. As palavras nem sempre batem ao mesmo ritmo do coração. Convenci-me que o nosso bateu alguns segundos em uníssono.

 

Não foi imaginada esta história. Antes fosse.

 

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publicado por outraidade às 16:07

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