O tempo que vai passando, leva-nos para outra idade.

Segunda-feira, 02 de Março de 2009

Pergunto-me tantas vezes o que é ser feliz. E perco-me em mil conjecturas de tanta variedade que acabo sempre por concluir que não é coisa fácil e que requer uma construção minuciosa e árdua, projectando o lugar de cada palavra, de cada cor, de cada acto. Encontro nos poetas pouca coisa sobre a felicidade, mas esses, têm a nobreza de atingir um outro patamar do estar, quase intransponível para mim, simples pessoa tão ligada às coisas, às pequenas coisas que preenchem o meu diário.

Quanto mais alto colocamos esse ideal de felicidade, mais dificilmente lhe chegamos.

Perdemos a satisfação que deveríamos sentir ao ouvir uma boa música, ao escutar uma boa notícia, ao sentir o odor da Primavera porque projectamos que a felicidade é outra coisa muito mais profunda, limitando-nos a viver nesta busca permanente que nunca termina.

Entretanto, desaproveitamos tanta coisa boa com que fomos tropeçando pelo caminho.

 

(ao meu amigo José Carlos do blog Transdisciplinar que, durante algum tempo, me deixou comentários que me trouxeram momentos de felicidade)

 

 

 

publicado por outraidade às 21:57

Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Acordei. Pela primeira vez em muitos anos, os montes estavam cobertos de neve, mesmo de fronte ás minhas janelas! Romântico, bucólico, poético.

A máquina fotográfica, claro, para um dia mostrar ao meu neto. Não é todos os anos que acontece.

As pilhas estavam descarregadas, todas as pilhas num total de oito. Inacreditável! Ponho as pilhas a carregar, só que dê para tirar uma fotografia…

Volto à janela, que paisagem!

As pilhas, nada, não recebiam carga. Ponho o segundo par no carregador.

O nevoeiro já tinha descido. Começa a chover e receio que se esbata aquela deslumbrante imagem que me acordara de manhã.

As nuvens passam, a chuva pára, o nevoeiro vai-se dissipando, abrem uns raios de sol que me deixam vislumbrar a linha de neve traçada a régua no meio da montanha. Ora, já bem menos porque a chuva a derretera.

Corro para a máquina, as pilhas já carregaram um pouco, uma fotografia sai. A máquina não liga, as pilhas não receberam carga porque o eficaz carregador não estava a fazer bom contacto.

Através da janela pularam-me os olhos para os montes. O nevoeiro já descia novamente em direcção ao rio, as nuvens carregadas cobriram o meu horizonte e voltou a chover intensamente. Fechei os olhos e reconstituí aquela primeira imagem que me deu tanta felicidade pela manhã.

Ouvia-se a chuva que estalava nas velhas telhas do sobrado. O caminho já era um ribeiro em direcção ao silvado.

A chuva a pouco e pouco foi abrandando. O nevoeiro esfarrapava-se nas costas do monte fintando-me os olhos nuns restos de neve que ainda não ficara derretida.

Ouvi a notícia da morte de Eluana. Deixei-me ficar presa na lonjura do pensamento que conseguia atravessar todos os montes que me rodeavam.

Aquela paisagem era apenas a subtileza dum momento tão profundo que mergulhava na saudade.

 

publicado por outraidade às 16:46

Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Falar de nós é muito complicado. Vamos falando de tudo e, muitas vezes, não falando de nada. Estamos atentos ao que nos rodeia, aos acontecimentos nacionais, aos internacionais, prendemo-nos às notícias que nos põem dentro de casa, mas vamo-nos adiando como notícia guardando e muito a nossa intimidade porque não fomos habituados a deixar transparecer os sentimentos de forma espontânea. Antes de qualquer atitude social reflectimos o nosso comportamento e cerceamo-nos à medida daquilo que entendemos como aceitável.

Há dias, um investigador de uma universidade portuguesa concluiu que os portugueses riem pouco, mesmo muito pouco. A opinião pública adiantou-se a definir razões e penso que ninguém referiu o fechamento social em que, cada vez mais, mergulhamos. Claro que não aspiramos a ser coloridos como os brasileiros ou intensos como os italianos, mas nós temos enraizadas tradições e músicas sobejamente arejadas para não querermos apenas puxar o lado fatalista que herdámos da batalha de Alcácer Quibir.

Inspirando-me um pouquinho na minha fraca formação sociológica, fui captando os rostos e os comportamentos e, mesmo sem qualquer instrução nessa área bastando-nos sermos mais observadores, reparamos que, todos os comportamentos um pouco mais fogosos são repreendidos. Uma boa gargalhada põe os circundantes a olhar, um chamamento mais caloroso atrai miradas importunadas, um simples choro a pulmões de uma criança irrita os passeantes.

“Muito riso, pouco siso” , assim diz o ditado e, talvez por isso, acreditamos que assim seja.

Mas essa forma de encarar a vida não nos transporta para uma melhor qualidade de viver. Andamos demasiado cinzentos, talvez porque o bom humor deixou de pertencer ao catálogo dos atributos humanos.

Esta penumbra que nos envolve, condiciona-nos e isola-nos. Por isso, já não sabemos falar de nós ou não achamos bem falar de nós. E quanto menos falamos de nós, menos estamos connosco mesmos e mais nos afastamos do que realmente somos.

 

 

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publicado por outraidade às 15:43

Terça-feira, 02 de Dezembro de 2008

Nos tempos que correm sinto-me de menos sorrisos. Quando muito algum riso amargamente provocado pela leviandade dos homens, exímios utilizadores daquilo que malevolamente têm na sua natureza, acreditando estouvadamente que os outros são destituídos de sentido crítico. Parece um desabafo amargo, desiludido, mas não. A percepção da realidade que nos envolve e que muitas vezes camuflamos de ignorância, faz-nos acordar para a brevidade deste percurso independentemente da fé em que acreditamos ou mesmo quando afirmamos que não temos fé.

Foi este o sentimento que me invadiu durante o recente ataque a Bombaim. Revi as imagens de locais que pisei quando visitei a Índia há um ano e meio. A noção de estar a ver algo errado, de não ser verosímil o relato dos repórteres porque era demasiado contrastante a serenidade dos rostos com que me cruzei e tanta violência. Ninguém tinha o direito de querer alterar as coisas assim.

Bombaim é uma cidade de contrastes é certo, inúmeros e indeterminados mas mesmo quando nos incomodamos com o monóxido de carbono dos pequenos e velhos táxis, dos motociclos de séculos passados eleitos como principal meio de transporte, dos edifícios de traça europeia ombreando com as janelas de estilo hindu, mesmo assim não se pode querer mudar o olhar místico entre o pacífico e o submisso que transparece dos semblantes emoldurados por cabelos negros que nos desassossegam quando, disfarçadamente, os encaramos.

 

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publicado por outraidade às 19:32

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

Não sei quando vou voltar a escrever com a mesma regularidade. Não descurei estes bons amigos que têm sido os blogs mas é fundamental que me sinta bem com aquilo que escrevo. Não me apetece fazer disto um diário, não me vejo a inventar assuntos. Afinal a razão é muito simples, não me tem apetecido. Alguma preguiça, alguma ocupação noutros assuntos...sem stress.

Vou-me deliciando com as leituras dos blogs que sempre visitei e outros que vou descobrindo e sinto-me bem assim...sem stress.

Afinal este é um dos prazeres, escrever...sem stress.

publicado por outraidade às 20:24

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

 

Alterei um pouco a imagem do blog, como é bem visível.

Depois de voltas e mais voltas para resolver um problemazito da "personalização", só tive uma solução - começar de novo.

Não deixa de ser interessante "lavar um pouco a cara", tornar-me mais "transparente", digo eu. Mas é assim que sinto a minha nova face que, convenhamos não me desagrada. No fundo não passa de uma recauchutagem porque, no essencial, nada mudou.

E é esta essência que faz de mim a pessoa que se vai mostrando aos poucos, nas palavras que escrevo, nas emoções em que permito que os outros entrem, nos pequenos nadas que ajudam a formular as interpretações que nos dão. Sabemos que nos lê quem nos conhece e quem nada sabe de nós. Este é um dos fascínios da tecnologia, chegar a cantos que, de outro modo, seria impensável e ir trocando ideias, sonhos, saberes.

 

Aqui vou estando, enquanto sentir que as passadas me vão facilitando o caminho.

publicado por outraidade às 21:18

Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Lia eu “há tempo para tudo, sim. Sobretudo para sentir que não há tempo para nada. O tempo escorrega. O tempo não existe.” ( na revista Plenitude, artigo de Pedro Chagas Freitas).

E fiquei a pensar o que faço ao meu tempo ou o que deixo que ele me faça a mim.

Fico sem tempo quando tenho tanto tempo, não sei se passo pelo tempo ou se é ele que passa por mim.

A minha eterna luta contra o tempo que está perdida desde o dia em que nasci.

A noção de que preciso de mais tempo, de que desperdiço o tempo.

O medo de não chegar a tempo.

Há quanto tempo me não desligo do tempo…

Porque sinto falta de tempo?

Não perco tempo, não ganho tempo, não escolho o tempo, não sei em que tempo vou ter tempo.

 

publicado por outraidade às 12:43

Segunda-feira, 08 de Setembro de 2008

Dei conta que não escrevo há muito tempo, provavelmente não tive nada de interessante para dizer ou talvez não me apeteça comentar muita coisa que anda por aí. As férias alteram algum do nosso ritmo habitual e, apesar de termos o computador à mão, falta-nos aquele ambiente propício para nos espraiarmos por alguns temas sumarentos. Depois das férias acabarem levamos tempo para retomar as tarefas mais ou menos rotineiras. Parecendo que não somos em muita coisa previsíveis, deixando que os hábitos preencham os nossos dias.

Não sei se posso fazer das férias a justificação desta ausência. Tenho sentido ultimamente falta de assunto ou então que me deixei tomar pelo meu cepticismo. Depois de uma semana em que os telejornais, durante três quartos de hora, são preenchidos com a criminalidade portuguesa como se estivéssemos todos à beira de um ataque de nervos, quase me sinto aliviada por andar um pouco arredia dos mass media, preferindo ocupar-me com coisas boas da vida como apanhar o resto do sol que ainda vai trespassando este Alentejo onde me situo agora num pré estágio para voltar ao alvoroço citadino, acreditando que a calmia dos fins de tarde nas praias quase desertas é privilégio que não posso desperdiçar. Vou-me deleitando com um pôr de sol que amanhã já não terei porque afinal, também eu, vou ter que por um fim a este deleite de não fazer nada.

 

publicado por outraidade às 15:01

Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

A informação “espectacular” (com imagens e tudo) fazia-me saltar no sofá onde me instalara cada vez que voltavam aos directos. À possibilidade da morte de alguém nem a minha educação de influência militarista conseguia enfrentar com a naturalidade necessária para não me deixar perturbar. Engasgava-me só de verbalizar “felizmente poderá ser o assaltante”, como sentia repulsa na  possibilidade de ouvir “infelizmente foi o refém”. A minha respiração tornou-se mais profunda num misto de alívio e de pesar.

O “dever de informação” ecoou-me mais uma vez na mente como algo contraditório sentindo que os direitos se atropelam quando nos consideramos do lado da razão.

É cómodo posicionarmo-nos de fora, sobretudo engendrar alternativas àquilo que não dominamos.

Defrontava-me com esta modernidade que se agradara do paliativo da fatalidade, encontrando nela uma relação multifacetada dos factos da nossa história recente e longínqua, a parca evolução da génese da natureza humana na qual os avanços da ciência e da técnica são estreitos para interferir nos circuitos integrados que nos proporcionam a vida.

A publicitação dos rostos sem o mínimo preconceito ou pudor, confinava a minha imbecilidade ao deixar-me agarrar ao sofá, embarcando em nome do “direito à informação”, onde o meu direito chegava ao limite de poder assistir a execuções em directo.

Não fui capaz de comandar a minha liberdade.

Nos rostos estava sofrimento de vida, o avizinhamento do termo daquele horrível jogo, a efemeridade de alguns momentos de glória ou a esperança grosseira que nem sei se tiveram tempo para acreditar.

Eu não preciso de saber quem deu ordens para matar.

 

 

publicado por outraidade às 21:23

Sábado, 26 de Julho de 2008

Em Outubro de 2006 publiquei um post que intitulei “Coisas da Idade”. Falar de sentimentos por animais poderá parecer coisas de criança mas também de gente da minha idade em que perdemos alguns preconceitos sobre os juízos de valor dos outros. A plástica da nossa vida leva-nos a esconder os momentos de tristeza deixando apenas que os outros penetrem na nossa concepção de “perfeição”. Encobrimos as lágrimas porque quem está ao nosso lado não sabe como secá-las ou não merece vê-las. Pensando assim, resolvi partilhar esta perda com quem me lê. A minha tronchuda era uma caniche muito especial, especial nos comportamentos, na forma como manifestava os seus acessos de afecto, as suas zangas quando a deixava sozinha, as brincadeiras com bolas e bonecos de peluche, o prazer que tinha em comer fruta e em apanhar banhos de sol. A Shena era destemida apesar do seu pequeno porte. Foi a minha boa companheira em muitos momentos. Não sei se os cães têm alma mas têm de certeza mais qualquer coisa para além do corpo.

                                                                                                                                                                            E essa mais qualquer coisa nela estava muito perto de mim.        

                                                                                               

 

                                              

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publicado por outraidade às 16:58

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